Você só é aquilo que foi. (Leonardo Ramos)
Este é um livro que conta a história de um psiquiatra
e seu paciente. O escritor, maluco, é conhecido de todos, mas pouco se conhece de seu
curador, o doutor Leonardo Ramos.
Leonardo Ramos nasceu na Província de Córdoba em 1948 e mudou-se para Buenos Aires ao
completar três anos. Cursou o primeiro e o segundo graus no Santa Maria Conceição das
Boas Almas, colégio de tradição católica marista. Depois de embrenhar-se na filosofia,
teve uma breve passagem pela música como baterista, quando descobriu que lhe faltavam
talento e ritmo. Foi expulso da pensão que dividia com duas garçonetes na Bambonera.
Curtia Jefferson Airplane e Gratefal Dead, e era assíduo leitor da contracultura. Seus
autores preferidos eram Ronald Laing, David Cooper e Thomas Szasz.
Tomou gosto pela loucura desde cedo, ouvindo sua mãe gritar: "Você me deixa louca,
menino!!!" Achava aquela reação da mãe fascinante, decidindo-se pela psiquiatria
na tenra infancia. Cursou medicina numa faculdade na periferia de Buenos Aires e seguiu
rumo ao equador em busca de fama e de grana. Especializou-se em psiquiatria na cidade de
Porto Alegre, entre Cardinales bonitas, sob o sol nas bancas de revistas.
Descontente com
as fofocas da cidade, seu caráter provinciano e o tratamento áspero dos gaúchos,
decidiu plantar seu consultório na rua Doutor Bacelar, Vila Clementino, reduto
tradicional da medicina paulista. É ali que, há exatamente vinte anos, vem se dedicando
a passar a limpo as vidas passadas dos outros. Leonardo nunca se permitiu passar sua vida
a limpo. Ao contrário, anda com a vida amarrotada e desalinhada. Mas nas dos outros...
tornou-se o maior especialista.
Sua técnica consiste em regredir o paciente além do grito primal e da caverna uterina. A
técnica de Leonardo é difundida em Harvard e no Instituto de Psiquiatria da Universidade
de Londres, onde tornou-se responsável pelo curso de pós-graduação "lroning Souls
in the Tropics", ministrado no verão exclusivamente para estudantes da América
Latina e do Caribe. LeonardoRamos descobriu que as vidas passadas impregnavam as
moléculas de adenosina, guaninas e outros aminoácidos, em determinados loci do
DNA. Essa descoberta só foi possível com o avanço da genética, quando, em recente
artigo no Nature, outro pesquisador argentino, doutor Pablo Fernandez, descobriu que o
linkage das vidas passadas localizava-se no braço curto pl2 do cromossomo 21.
Estavam, assim, delineados o desabamento da teoria freudiana, o arquivamento do conceito
de arquétipo de Jung e a derrocada da couraça reichiana.Você só é tudo aquilo que já
foi: a terra, o fogo, a água e o ar. O sintético, o idiossincrático e o infinito. Um
tratamento para endireitar o pau que nasce torto.
Estas e outras credenciais acadêmicas animaram o escritor panicado a romper suas
resistências sexistas. Foram sessões semanais que atravessaram outono e inverno de 1997.
A pesquisa de cada época é repleta de detalhes culturais, políticos e sexuais,
permitindo ao leitor experimentar com profundidade as emoções particulares de cada
tempo. Destaque para a parte culinária e para os diálogos picantes entre Leonardo e o
paciente. O atrevimento do paciente desbanca e desbanca inúmeras vezes o curioso e
penetrante Leonardo.
Mas qual é, afinal, o diagnóstico do paciente? O principal problema do escritor é o
terror mórbido de joanetes, a Fobia de Joanetes. A etiologia desse raro transtorno mental
está no conflito causado por impulsos sexuais homônimos, que não encontram recompensa
satisfatória. São descritas três formas de tratamento para a Fobia de Joanetes:
a) o paciente deve evitar o contato com joanetes restringindo a demanda por anúncio
explícito da repulsa na Internet;
b) os joanetes passam despercebidos nas mulheres de bumbum corcovado e pele morena; e
c) se a mulher for um avião em folha, tratamento predileto do escritor, o defeito está
lá mas ninguém nota.
Em resumo, o livro traz uma síntese histórica dos dois mil anos da civilização
judaico-cristã, contada pela geração do spinello e da liberação sexual.Vai
trazer muito barulhinho bom para o bolso e para o leito do escritor. Como dizia minha
avó:
-Vai logo ler este livro que a vida é uma só!
Jair de Jesus Mari
Professor titular do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina