Isso tudo é de graça
Eu era alguém.
Passei por uma porta de ferro, nada apitou e eu comecei a chorar.
Tirei a bandeira da bolsa e enxuguei as lágrimas.
Um sujeito tocou uma possante corneta atrás de mim. Era o seu Agenor, meu primeiro amigo. Meu primeiro novo amigo. Nordestino, baixinho, moreno, careca e com um sorriso maravilhoso. Uns sessenta anos. Bem vividos, me pareceram.
— Primeira Copa é assim mesmo. É a minha quinta! Espanha, Itália, México, Estados Unidos, França. Conhece a França?
— Pouco. Só o sul.
Dali pra frente, a minha vida seria uma mentira só.
O que mais me impressionou na sala VIP foi o carpete. Dessa altura, ó. Poltronas de couro, mesinhas, cinzeiro pra tudo quanto é lado. Flores naturais, mocinhas uniformizadas, todas muito simpáticas. Os jornais do dia, as revistas da semana. E o bar.
Um balcão com tudo quanto é bebida, menos cachaça. Devia custar uma grana. Uns potinhos com amendoim, umas coisinhas, azeitonas e muitos, muitos guardanapos. Fora os canapés. Tinha um lá que eu acho que devia ser uma coisa que eu nunca tinha visto na vida: caviar. A Dadala, metidinha como ela é, ia querer.
Atrás de nós, um casal que eu acho que estava falando alemão, pois francês não era porque eu já estava dominando bem. Eles não falavam nem savá e nem muá. Eram umas sete e meia da manhã e o seu Agenor foi se desculpando:
— Não sou nenhum alcoólatra, mas Copa é Copa. Quer um uísque? Um vinho?
Olhei para o balcão. Devia custar uma grana preta.
— Quanto é?
— Isso tudo é de graça.
Não acreditei. Quer dizer que eu podia beber aquilo tudo, comer o caviar e era de graça? Tudo? Até o uísque?
— Vai de oito ou doze?
— Quê?
— O uísque? Oito ou doze anos?
Dei uma de gostoso e engraçadinho:
— Não tem do ano?
Seu Agenor deu uma gargalhada gostosíssima. Foi a primeira gargalhada de muitas que eu ouviria dele durante os próximos vários dias. Seu Agenor servindo os uísques e eu pensando: é por isso que rico é rico. Pra rico, tudo é de graça. Rico não gasta. Dão tudo pra ele.
Pra falar a verdade, o tal do caviar é mesmo um horror. Sou muito mais mortadela. Principalmente aquela da Padaria do Alentejo, lá na esquina da Javari. Com o pãozinho francês sem o miolo, pegando de leve na chapa. Seu Agenor deu o primeiro gole e estalou a língua:
— O Romário vai fazer falta nesta Copa.
Eu estalei a língua:
— Nem me fale.
Fiquei olhando o seu Agenor, que tinha pago aqueles 32 mil pra ir para a Copa. Devia ser milionário. Ele deu uma geral dele mesmo: trabalhava com mineração. Tinha negócios na Nigéria — afirmava que a Nigéria ia ser a sensação da Copa — e na Ásia. Morava em Brasília, que era “pra ficá perto dus home”. Era o típico baiano, embora nascido em Tocantins. Gente boa, senti logo.
Foi chegando mais gente e se acomodando. Pessoas que seriam as minhas amigas dali pra frente. Depois de um mês, a gente seria mesmo uma família. Duas coisas eram comuns a todas aquelas pessoas. Como eu, eram taradas por futebol. E, diferentemente de mim, eram todos ricos. Muito ricos.
Eu não tinha nem acabado o meu primeiro uísque e o seu Agenor já tinha partido para o vinho. Francês, me disse. A mocinha já tinha trocado o cinzeiro umas três vezes. De vez em quando, uma voz saía sei lá de onde anunciando os vôos. Era uma voz muito esquisita. Parecia que saía de dentro de um ovo choco. Falava em português e inglês. Eu ficava atento. Já pensou, perder o vôo? Mas isso era impossível pois o meu companheiro, que não dava a menor atenção ao que a mulher falava, tinha experiência naquelas coisas. Parecia que não era com ele que ela falava. O negócio era ficar grudado no seu Agenor. Perguntei, por perguntar:
—- O senhor fala francês?
— Picas!
Por um momento fiquei sem saber se picas era uma palavra em francês que significava “perfeitamente” ou se era picas mesmo, como a gente falava lá na Mooca. Ele:
— E você?
E eu, dominando o pedaço, estalando a língua, em francês:
— Picás!
Passou um sujeito por nós e deu um tapinha nas costas do seu Agenor. Depois, eu ficaria sabendo o nome dele: Geraldinho. Naquele momento, eu ainda não poderia supor que os dois eram amigos há tanto tempo.