PARIS! (Romance inédito)

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Dessas com cabelos meio enroladinhos que caem pelo ombro
 

Minha primeira decisão em terras francesas: jamais cair em tentação de abrir a geladeirinha. Jamais, em hipótese alguma.

Seu Agenor passava arrastando sua mala de rodinha.

— Seu Agenor, o quarto do senhor também é síngol?

— Claro! Até mais.

— Té mais.

Preciso descobrir alguém que esteja num quarto que não seja síngol pra saber o que é um quarto síngol. Fechei a porta.

Estava sozinho no quarto. Estava sozinho em Paris. Impossível não imaginar a Magdala ali, comigo. Pelo menos para ajeitar as roupas no armário. Ela ia adorar isso aqui. Será que um dia eu vou ter grana pra trazer a Magdala aqui no singolzão? Morar em Paris? Meu Deus, e o telefone? Uma quantidade de botões e desenhinhos que não acabava mais. Instruções em francês, inglês e espanhol. Eu ia me virar em espanhol. Neto.

Pelo preço da água, eu imaginei quanto ia custar uma ligação lá para o Brasil, lá pra casa. Ia ficar metade de toda a grana que eu estava levando. Quando eu acordar, eu mando uma cartinha pra ela.

Eu estava deitado de costas, olhando para o teto. De sapatos. Três e meia da manhã. Eu não ia conseguir dormir. Às quatro da tarde começava a Copa. Aquilo tudo era muito pra minha cabeça.

Tomei um banho — baita banheiro, com xampu deles e tudo — e fui para o Arco do Triunfo. Era depois da esquina. Queria ver a coisa de perto.

A rua que eu peguei se chamava Avenida de la Grande Armée. As calçadas, desertas naquela hora, eram largas, muito largas as calçadas daquela avenida. Não conseguia olhar para o chão. Os prédios me deixavam louco. Todos com sótão ou sei lá o nome daquilo. Tudo mais ou menos da mesma altura. Tudo cinza. Luzes, muitas luzes.

Antes de chegar exatamente no Arco do Triunfo sentei num banco, tirei o livro sobre Paris do bolso e dei uma geral em Arco do Triunfo. Cheguei nele sabendo tudo, pensando no Napoleão Bonaparte. Tudo que eu sabia do Napoleão era que ele andava com a mão dentro do peito. Não tinha ninguém lá naquela hora. A coisa é imensa.

— Também está sem sono?

Assim, nas costas, voz de mulher. Em português! Me virei. Antes de falar oi ou que susto, dei uma geral: no máximo 25 anos, altura certinha. Gostosa, pra dizer a verdade. Loira, dessas com cabelos meio enroladinhos que caem pelo ombro. Olho verde ou azul?

— Sem sono também?

Eu ainda não tinha dito nada.

Te vi no ônibus. Méridien, né? Muito prazer.

— Prazer.

Ia dar rolo. Senti.

— Teu quarto é síngol?

— Já, assim de cara, você quer saber isso?

Pela reação dela, devo ter dito alguma besteira. A gente estava descendo a Avenida de la Grande Armée, voltando para o hotel. Para o café da manhã, que começava às seis. Já estava claro. Lá do outro lado, tinha um outro arco, só que moderno, branco. Amanhã eu vou lá.

— Não, meu quarto não é síngol. Estou com o meu namorado.

Silêncio. Tinha agora duas coisas para pensar: porque ela achou meio esquisito eu perguntar se o apartamento dela era síngol e que namorado é esse que deixa a namorada solta em Paris de madrugada?

No meio do caminho, ela me perguntou:

— O seu é síngol?

— É. Muito bom.

Novo silêncio. Chuto uma tampinha. Será que ela entende de futebol ou só tá acompanhando o cara? A tampinha foi longe.

— Entende de futebol?

— Pode perguntar.