PARIS! (Romance inédito)

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Só quero te dar um tênis novo

A loucura estava apenas começando. Pra mim e pra minha turma.

No meu quarto, um telegrama entra por debaixo da porta. Dela:

Te amo pt juízo pt sua Dadala pt       

Cinco palavras. Pensei: penta.

A Torre Eiffel não saía da minha cabeça. De tarde eu ia lá. Sozinho. Andar por andar.

Toca a campainha. É o seu Agenor.

— Grande seu Agenor!

Seu Agenor entrou meio sério.

— Tem dez minutos?

— O tempo que o senhor quiser.

— Em primeiro lugar, vamos parar com esse negócio de senhor e seu Agenor. Numa Copa — e esta é a minha quinta —, todos se igualam. Corintianos e flamenguistas, ricos e pobres. Paulistas e nordestinos.

Seu Agenor abriu a geladeirinha, para minha aflição. Tirou a caixinha de gelo, abriu duas garrafinhas de uísque 12 anos e serviu. Tenho certeza que ele percebeu que eu estava preocupado com aquele pequeno gasto que estava aprontando na minha geladeirinha.

— Eu estava dizendo que aqui somos todos iguais. Amigos, entende, Gregório? E eu gostei de você quando te vi chorando lá no aeroporto de Guarulhos. Você é um sujeito bom. Desculpa se filosofo de vez em quando. Tenho apenas o primário, mas conheço a vida, as pessoas.

Eu não poderia imaginar onde é que o seu Agenor (não consigo deixar de usar o “seu”) queria chegar.

— Vamos comprar um tênis para você. Preciso comprar uma bota que vi numa loja aqui perto.

Eu não estava entendendo. Picas.

— Tênis? Pra mim? Mas este não está bom?

Seu Agenor virou o uísque dele num gole, colocou as duas mãos no meu ombro:

— Meu filho, tenho idade para ser seu pai. E sei que você é pobre.

Silêncio total no meu síngol.

— Sei que você vendeu o ingresso do jogo contra a Escócia. Sei que você ganhou a aposta do Castilho porque assistiu o jogo pela televisão. Vamos comprar um tênis para você. Depois conversamos. Você tem boa pinta, sabe sorrir, cativa as pessoas. Mas o seu tênis denuncia a tua origem. Mesmo porque vai ter um campeonato de tênis aqui no hotel e você me disse outro dia que gosta de jogar.

Fiquei olhando abismado para ele. Ele deu uma gargalhada. Achei que estava me achacando.

— O que você quer? Rachar a grana que eu ganhei do Castilho na aposta?

Ele riu mais ainda.

— Só quero te dar um tênis novo. E comprar uma bota para mim. Tinha algum programa para agora?

— Pensando em ir até a Torre Eiffel.

— Pois compramos o tênis, vamos almoçar e depois vamos até a torre. Sabia que aqui em Paris tem uma agência do Bradesco?

Pasmei!

Não vou descrever a cena aqui do seu Agenor falando “francês” com a mocinha da loja, a condonnière, pois vai faltar espaço e talento para tanto. Mas agora já estávamos no restaurante e eu estava mesmo de tênis novo.

Antes de ir até a loja de tênis passamos na concierge e eu fiz a minha inscrição para o torneio de tênis entre os brasileiros. 100 dólares! Quem ganhar leva tudo. Tinha oitenta inscritos. Três dias de jogos, até a ida para Nantes para ver o jogo contra Marrocos.