Ronaldinho triste, cansado, evitando a imprensa
O bolão do jogo contra
a Holanda arrecadou quase
trinta mil
dólares. Coloquei três
a zero para nós
e não
ganhei nada.
Várias pessoas
acertaram a vitória nos pênaltis.
Agora a gente tinha a França pela frente que havia chegado até ali aos trancos e barrancos. Morte súbita contra o Paraguai e nos pênaltis contra a Itália. Depois ainda pegou a moleza da Croácia.
E o Brasil. Eu precisava estudar o jogo. Estava de olho no bolão. O Cafu iria voltar para a lateral no lugar do estabanado Zé Carlos. Os três mosqueteiros foram ver o último treino do Brasil.
Enquanto o seu Agenor e o Geraldinho discutiam jogadas e armações táticas, eu estava de olho noutra coisa. Nos celulares. Quando o ônibus chegou da concentração para o treino, todos os jogadores – todos – desceram falando no telefone. Ainda fiz uma piadinha interna: mas eles não estão concentrados?
O Ronaldinho tinha três celulares. Sentado no banco de reserva ele revezava entre um e outro e outro. Devia ser a mãe dele contando que tinha brigado com a amante do pai, a namorada dizendo que não estava de caso com o jornalista da Globo, a Inter querendo saber do joelho dele, a Nike querendo impor a cor da chuteira. No meio do campo, o Zagallo gritava.
Ronaldinho triste, cansado, evitando a imprensa. E os seus celulares não paravam de tocar.
Pensei: esse negócio não vai dar certo. Ninguém está concentrado. O Brasil vai perder esta Copa. O pensamento veio firme na minha cabeça. Vamos perder. Vou jogar contra o Brasil no bolão. Mas e aí? Vou ter que torcer contra? Mas é que estava tão na minha cara que ia dar caca, que eu não tive dúvida.
Cheguei no hotel, procurei o seu Castilho, que ficava com a grana das apostas, escrevi três a zero, coloquei meu nome, meu passaporte e o número do meu quarto no papelzinho. Coloquei dentro do envelope, colei tudo e entreguei para o seu Castilho com dez notas de cem dólares.
E não fui ao jogo. Fiquei no meu quarto, esperando a hora. Claro que, se o Brasil fizesse um gol, eu perderia e iria torcer como nunca para nós. Tinha meus raciocínios prontos. Queria que o Brasil fosse campeão mas, se perdesse, que fosse de três a zero. Duvido que alguém tivesse colocado esse resultado. E o bolão, quando o ônibus saiu, já estava em 182 mil dólares. Mais oitenta, fiz a conta, fico com 262 mil. Tirando os 10 do seu Gomes, que eu já mandei ontem para a Dadala, compro dois mil de presentes e volto com 250 mil dólares para o Brasil.
Céus, eu estava mesmo era sonhando. Minha mala já estava pronta. Iríamos partir de madrugada. Saída do hotel às três da manhã. Dentro da mala, 40 xampus e 40 condicionadores. Tudo escrito na língua do Marquês de Sade, como diria o Geraldinho.
Brasil: Taffarel, Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos. Dunga, César Sampaio, Leonardo e
Rivaldo. Bebeto e Ronaldo.
O juiz era marroquino e diziam que ia favorecer os franceses, porque nós havíamos eliminado eles quando perdemos para a Noruega. Fofocas de uma Copa do Mundo.
Faltavam cinco minutos para começar o jogo, quando batem na porta. Não acreditei. Seu Agenor e o Geraldinho também não haviam ido ao estádio. Haviam feito o mesmo que eu: apostado na França. Um a zero, o seu Agenor e dois a zero o Geraldinho. Quando eu disse que cravara três a zero, juro que ficou um certo mal-estar no quarto. Nos sentimos três traidores da pátria.
Não rimos. Ficamos em silêncio até os 27 minutos quando o Roberto Carlos foi fazer uma gracinha perto da bandeirinha. Córner, como disse o seu Agenor. Zidane colocou a bolada nas mãos do seu Agenor.
Agora era torcer para a França fazer mais. Ou o Brasil fazer um e aí a gente ia virar Brasil de novo.
No intervalo, o seu Agenor resolveu fazer um discurso:
— Vamos esquecer o resultado do jogo e do bolão. Vamos falar de negócios. Negócios. Temos só mais umas oito horas juntos. Estamos juntos, os três mosqueteiros, há 40 dias. Somos os três mosqueteiros!!! Ou não somos?
Geraldinho, já de pilequinho:
— Um por todos e todos por um!!!
— Vive la France. Vive Paris!