PARIS! (Romance inédito)

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O que me impressionou na Torre Eiffel foram os parafusos

Ali, no restaurante, contei toda a minha verdadeira história para o seu Agenor, que me escutava em silêncio. O Seu Gomes, o casamento, o microondas das Casas Bahia. A venda dos ingressos.

Ele me prometeu segredo. Não sei por quê, mas eu confiava naquele baixinho. Se eu tinha idade para ser seu filho, ele tinha idade (e experiência) para ser meu pai. Seu Agenor era um dos únicos exportadores de manganês do Brasil. Seu mercado era a Ásia, incluindo a parte russa. Pois estávamos ali no Le Clos Longchamp almoçando e dava para ver ao fundo a Carolina e o seu namorado discutindo feio.

Seu Agenor, pela posição que ocupava na mesa não viu, mas eu vi quando o namorado da Carolina deu um tapa no rosto dela, se levantou e passou por nós. E vi ainda que ele pegou a mala na recepção, entrou num táxi e sumiu. Esperava que para sempre.

O que me impressionou na Torre Eiffel foram os parafusos. Eles têm uns três metros de diâmetro. Fiquei ali olhando para os parafusos e pensando quantos franceses seriam necessários para enroscar cada um deles. Seu Agenor ficou com medo e permaneceu no deuxième étage. Eu estava no troisième, tendo toda a cidade abaixo de mim. Um vento desgraçado e a mão da Carolina no meu ombro.

— Parece que a cidade é pequena demais para nós dois. — Ela me disse sorrindo. Nem parecia a menina que eu vi chorando no Longchamp, duas horas atrás.

Acho que deixei o seu Agenor me esperando lá no segundo andar mais de uma hora, porque a Carolina resolveu me contar a vida dela lá em cima.

E eu que achava que ela era uma menina rica, cheia de lero-lero, tive uma surpresa. Ela morava na Holanda e jogava futebol num time feminino. Profissional. Jogava no meio-de-campo e seu ídolo era o Rivellino. — E o seu namorado? — perguntei, sem comentar que havia visto o tapa.

— Ele faz cinema. Produtor e diretor. Viajou para fazer uns contatos na Bélgica e na Hungria.

Ficamos de sair de noite.

De noite, depois de jogar três partidas de tênis e ganhar as três, dei um trato no corpo e na cabeça. Culpado, passei um telegrama para a Dadala. Estava tudo bem, amava ela e et cetera. Foi fácil ganhar as partidas daqueles banqueiros e usineiros barrigudinhos. Durante anos fui pegador de bolas no Juventus e peguei a manha. Só não segui carreira no tênis por causa do Bradesco. Sabia que eu jogava bem. Já estava nas oitavas-de-final. Mais quatro jogos e eu pegava o prêmio de mais de oito mil dólares.

O que mais impressionava nos ricos do pedaço era a facilidade que eu tinha para calcular o câmbio. Chegava um cara e perguntava: Gregório, mil e duzentos francos, quanto tá valendo em dólar e em real? E eu com a minha cabecinha de “câmbio do Bradesco” fazia a conversão em segundos. Percebia que estava impressionando o pessoal. Principalmente depois que ouvi o seu Agenor responder a um senador o que eu fazia na vida:

— Trabalha com banco!

E piscou para mim.

Dez minutos antes de descer para pegar a Carolina no quarto dela, a culpa foi aumentando. A Dadala martelava a minha cabeça. Liguei e disse que estava com dor de cabeça e muito cansado com as partidas. Transferi o problema para o almoço do dia seguinte.

Fui jantar com o seu Agenor e o Geraldinho — pela primeira vez sóbrio — num italiano ali perto do Méridien. E o Geraldinho contou a sua história.

Titular de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, havia ganho seiscentos mil reais na loteria comum. Comprou um apartamento por 200 para ele a mulher e as duas filhas, deu 200 mil para a mulher fazer o que queria e disse para ela:

— Com esses duzentos mil que sobraram, vou fazer o que eu sempre sonhei na minha vida. Assistir a uma Copa do Mundo, com toda a mordomia do mundo. E só volto quanto gastar os 200 mil dólares na Europa. Posso levar um ou dois anos. Ou um mês. Mas um dia eu volto, Geraldine