PARIS! (Romance inédito)

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Ja vudré prandr mõn páti dejône! 

Quando eu falei com ele, ele ficou quieto, me olhando, analisando. Talvez com inveja, pensei na hora. Pouca gente sabia do problema do seu Gomes, da grana que eu estava devendo. Ele ficou me olhando e eu fiquei olhando para ele. Não sabia se seria interessante ele saber que um funcionário dele andava metido com agiotagens. Ele não devia ter esse problema, ganhava três paus por mês, eu sabia. Podia se perceber isso olhando a camisa dele e a gravata. Coisa de rico. A camisa era daquelas azuis com a gola branca, sabe? A gravata devia ser cara: tinha todas as cores do arco-íris. Coisa de rico. Ele se debruçou na mesa, chegando mais perto de mim.

em Paris tem uma lojona chamada Galeria Lafayette. Galeria Lafayette. Todo mundo sabe onde é. Tipo Mappin, sabe? Você vai me trazer duas gravatas. Da Galeria Lafaiete. Tem que ter a etiqueta. Te dou os dólares para comprar. Gravatas francesas, é claro. E um par de abotoaduras prateadas com dois cavalinhos em cada uma delas. Um colega da central de Osasco comprou . Não tem erro: são prateadas e têm dois cavalinhos.

Quer dizer que

Calma. Vou falar com a direção-geral. E, se tudo der certo, mando organizar uma vaquinha aqui no banco. A do casamento deu quanto?

Quase duzentos!

— Essa vai dar mais. Sabe como o pessoal gosta de futebol. Falar nisso, tá sabendo que o banco vai mudar o horário de funcionamento por causa dos jogos, né? Agora me responde: um país desses pode ir pra frente?

Cantarolei dentro de mim: pra frente, Brasil, salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão.

A vaquinha, depois que a direção-geral liberou a minha licençasem remuneração! —, a vaquinha deu pouco mais de cem paus.

Isso é inveja, como disse a Dadala para os pais dela, no churrasco domingo na casa do meu sogro.

O churrasco de despedida. Minha irmã mais velha me levou um livrinho chamado Berlitz, Francês para Viagem e Dicionário. Cabia no bolso e era genial. Tinha todas as frases que eu ia precisar dizer na França. Era dividido em situações: chegada, hotel, restaurante, divertimentos, guia de compras, excursões, banco (banco!),  médico e informações gerais. Tinha as frases em português, como era em francês e como era a pronúncia. Treinei com a minha irmã:

— Ja vudré prandr mõn páti dejône!

Pronto, o café da manhã estava garantido.

— Vuaçi mõ paçpór!

— Ja riã nas dêklarê.

— Çil vu plé ün butéi da kónhak!

— Mérçi.

Era mais fácil do que eu imaginava.

E quando não me entendessem era para dizer:

— Ja ná cüi pa çür ká la prónõçiaçiõ çua jüçt.

Estava eu a praticar o meu francês e chega o seu Santana, velho amigo do meu pai:

Meu filho, isso aqui vai te ajudar muito. Aqui nesse livro tem tudo sobre a França. Restaurantes, catedrais, viagens, castelos, vinhos, hotéis, mapas, cozinha, litoral e interior. Tem até o metrô de Paris. Olha o que está escrito aqui: o guia que mostra o que os outros contam. É de quando eu fui .

Olhei o livro. Bonito. A edição era de 1958. Tava na capa. Ele notou que eu notei.

Não se preocupe. A França é imutável. Nada mudou. A Notre Dame continua no mesmo lugar.

Minha mãe, com uma garrafa de vinho francêsninguém sabe de onde surgiu:

Meu filho, você me promete uma coisa?

Claro, mãe.