Assisti o jogo pela televisão de pé e em francês.
Alisei o lençol branco da cama e parti para a contabilidade: 300 dólares dos 352 que eu havia trazido mais 300 dólares da venda do ingresso. Vendi para um brasileiro mesmo, um mineiro de Mariana, o que muito facilitou a transação. Era de outro hotel, do outro lado de Paris, eu olhei no mapinha, não ia me entregar. E mais 3.350 francos, o que dava 610 dólares, mais ou menos, que era o dinheiro do bolão que eu tinha ganho e dividido com uma velha goiana. Tudo somado, em dólares, dava um pouquinho mais de mil. Fora o dinheiro do seu Castilho. Tirei a meia, coloquei uns mil lá dentro, calcei a meia e o sapato. Fiquei mais alto, até.
É, no primeiro dia, eu havia triplicado o meu capital. Dava até para jantar fora, sem exagerar.
Quando eu entreguei o ingresso para o cara de Mariana e ele ficou todo feliz e virou as costas e saiu andando na direção do estádio, meu deu vontade de chorar. Chorar, porque eu não ia ver o jogo, nem a abertura, nem conhecer o estádio que, por fora, era deslumbrante. Chorar, porque eu pensei na Magdala na hora H e vendi. Voltei praquele bar, pedi uma bierre e assisti o jogo pela televisão de pé e em francês.
Na volta, no ônibus, quando alguém comentou o segundo gol, o do Cafu, eu disse:
— Não foi do Cafu. O gol foi contra.
Todo mundo me olhou espantado dentro do ônibus.
— Imagina, cara, deu até no placar eletrônico. Cafu!
— Gol contra! Quer apostar?
Eu sabia o que estava dizendo. Vi a jogada lá no bar umas seis vezes, de tudo quanto era ângulo. Quinhentos francos. Mais tarde o seu Castilho, depois de ver o teipe, me pagaria, admirado. Como é que só eu tinha visto aquilo tão claramente. Coloquei na meia do outro pé, dentro do banheiro, lá embaixo.
Contabilizado e banhado, desci. No corredor encontro com o seu Agenor e fomos jantar ali perto, no Chez Georges, depuis 1926. Não sei como, consegui pedir carninha moída com purê de batata. Uma delícia.
Escoceses bêbados e de saia entravam, qual mendigos, para pedir pão e fromage, que é queijo francês fedido.
Devia estar a maior festa no Brasil e eu ainda não tinha dado notícias para a Magdala. Ia gastar um dinheirinho e telefonar. Estava contando isso para o Geraldinho, que tinha acompanhado a gente, quando ele tirou um celular e me ofereceu, completamente embriagado:
— Fale quanto quiser. Hoje é festa.
Eu aceitei, é claro, fui para o banheiro, peguei o papelzinho onde a Magdala tinha escrito uma porção de números que era para ligar para o Brasil. A primeira coisa que ela perguntou foi: vendeu? Claro, meu amor.
Eu queria contar tudo para ela, a viagem, o hotel, que eu ainda não sabia o que era síngol e nem quando o Di Stefano tinha estreado na seleção argentina — isso não, melhor não —, mas, em consideração ao Geraldinho, era melhor não abusar. Ela me disse que depois do jogo, tudo mundo tinha ido comemorar na cantina Balila. Fiquei com inveja, ali no mictório do Chez Georges, depuis 1926, ano que o meu pai tinha nascido. Desliguei, fiz xixi e não consegui descobrir onde era a descarga. Seu Agenor fez questão de pagar a conta. E ainda disse:
— Uma merreca.
Quando entrei no quarto, tinha um bilhete:
“Amanhã meu quarto estará single. Carolina.”
Deitei e liguei a televisão. Tinha um canal passando sacanagem. De repente parou. Umas coisas escritas em francês e eu entendi que tinha que pagar para continuar a ver. Não ia pagar nada.
Fui dormir todo orgulhoso. Para meu primeiro dia em Paris, eu era um sucesso!