PARIS! (Romance inédito)

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Assistir a uma Copa do  Mundo era um sonho

— O senhor vai gostar. O senhor ganhou o pacote “primeira classe”, o que significa que vai viajar na classe executiva, ficar em hotel cinco-estrelas — cinco-estrelas de Paris! — assistir aos jogos em lugares “pré-vilegiados” e, ainda por cima, ficar num quarto single. Ônibus do hotel para a estação de trem, TGV para Nantes e Marselha. Lugar reservadíssimo. Parabéns, senhor Gregório!

— TGV?

— Trem-bala. Tour por Paris, circuito da champanhe, viagem à Bélgica. Disney.

— Quarto síngol, é?

— Sim, senhor Gregório. Single! O senhor embarca dia nove, às oito da manhã. Pelo fuso horário, vai chegar na madrugada do dia 10 em Paris. O Brasil estréia contra a Escócia às quatro da tarde.

Não posso deixar de registrar que aquele negócio de senhor Gregório eu tinha gostado. E muito. A Dayse era uma moça muito da gostosa, cá entre nós. E estava com uma espécie de uniforme chique vermelho. Mulher de vermelho me deixa doido. Me mata.

 

— Não, Magdala. Não tem jeitinho nenhum. Ou eu vou, ou eu não vou. Tem jeitinho, não. Quarto síngol, acredita?

— O quê?

— O quarto é síngol.

— Ah, claro... E o que que é quarto síngol?

— Sei lá. Mas deve ser coisa finíssima. Do jeito que a Dayse falou. Quanto você tem na poupança, amor?

— Uns cento e dezoito.

— É, não posso ir para um quarto síngol com cento e poucos paus. Tem uísque?

— Acabou. Esqueceu? Mas nem se vender pela metade do preço?

— Tem jeito, não. Melhor esquecer esse negócio e pensar no bebê.

— E o seu Gomes?

Não era no seu Gomes que eu pensava. Sempre fui tarado por futebol. Desses metidos a entender. Sei até quem era o reserva do Zito em 62. Assistir a uma Copa do Mundo era um sonho. Mas era um sonho como ter uma Ferrari, morar num apartamento grande, espaçoso, viajar para a Lua. Coisa distante, impossível mesmo. Ficava vendo os jogos do Brasil nas últimas Copas e me imaginando lá, com a camisa amarela, cara pintada, a bandeira do Brasil enrolada no pescoço. Na Copa de 70 eu tinha uns seis, sete anos. É a primeira de que eu me lembro. Lembro de um jogo contra o Uruguai e meu pai dizendo que ia ser o jogo da vingança. Me contou da Copa de 50, do Gighia, do Barbosa. Desde então, nenhum goleiro negro defendeu o gol do Brasil em Copas, me lembro dele dizendo.

Assistir a uma Copa do Mundo. Em Paris, ainda por cima. Eu tinha que tirar isso da minha cabeça e cair na real. O filho que ia nascer, o Bradesco, o seu Gomes. Minha vida era isso. Mais nada.

Jantamos em silêncio. Nem elogiei a lasanha. Nem do bebê a gente falava. Pensava no Fernandinho. Devia estar contente. Pegou a subgerência. Puxa-saco. Pensei em até brigar com a Magdala porque o café estava frio. Mas logo percebi que eu é que tinha demorado para tomar. Minha cabeça não estava ali. Estava em Paris, estava nos pés do Ronaldinho.

Paris: Torre Eiffel, Arco do Triunfo, o Rio Sena, o Museu do Louvre. O que mais eu sabia de Paris? Acho que nada. Cidade Luz, isso. Meu pai me contando histórias da Brigitte Bardot. Quantos anos será que ela deve ter agora? Cuida de bicho, parece.

Tinha também o Paris Saint Germain, o time que o Raí jogou. E tinha, é claro, a imagem do Zico perdendo aquele pênalti em 86 contra a França. Tudo na cabeça, duma vez só.