PARIS! (Romance inédito)

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Juro que tinha até macarronada no café da manhã

— Quem foi o reserva do Zito em 62?

Peguei pesado.

— Pegou pesado, hein? Achei que você ia falar do Marcelinho Carioca, no máximo. Mas o reserva do Zito em 62 foi o José Ferreira Franco.

— Quem?

— José Ferreira Franco, o Zequinha.

Essa menina tá me gozando. Saber que era o Zequinha já é dificílimo. Saber o nome do cara.

— Do Palmeiras.

José Ferreira Franco? Bem, tem o José que dá Zequinha, né?

— Prova!

— Tenho lá no quarto o livro do Orlando Duarte. Depois te mostro. Zequinha.

— Não, que é Zequinha eu sei, o que me impressionou foi você saber o nome inteiro dele.

— Pois é. Agora é a minha vez. Quando foi e em que estádio que o Di Stefano estreou na seleção argentina?

E ficou olhando para a minha cara, parada, sabendo que tinha arrasado comigo. Eu não tinha a mínima idéia.

— Você ainda não disse o seu nome.

— Carolina Franco.

— Gregório Morus, prazer.

Ela não tinha esquecido, não:

— Hein? O Di Stefano? Só o estádio.

 Só o estádio? Só isso?

Começamos a rir.

A Sylvia, de vermelho, disse que ia distribuir o ingresso às dez horas. Eu tinha que começar a pensar em como vender o produto e em que câmbio. Ainda não sabia nem o preço oficial dele.

Abri o livrinho, decorei e desci: já vudré prãdr mõ páti dêjônê. Tomei o café da manhã com a Carolina. Por insistência dela. Se é que aquilo pode ser chamado de café. Juro que tinha até macarronada. A palavra chave, para mim, que queria café com leite e que tinha lido no livrinho era ankafêôlé. Devo dizer que me saí muito bem. Percebi que a Carolina também não era lá essas coisas, não. No francês, eu digo.

Me despedi dizendo que eu ia descobrir em que estádio o Di Stefano tinha estreado na seleção argentina. Era fácil: o primeiro argentino que eu encontrasse, daria o serviço.

O elevador já havia aberto a porta, quando ela perguntou o meu signo. Aquário, disse rápido. Nem perguntei o dela porque, além da porta fechar, eu tinha um colega de banco, o Batatais, que dizia que mulher que pergunta o signo da gente, quer dar.

 Dez horas, eu peguei o meu ingresso lá embaixo e voltei com ele no bolso para o quarto. O ônibus para o jogo ia sair à uma da tarde. O jogo era às quatro. Me tranquei no quarto e fiquei olhando para ele. Valia pouco, o filho da mãe. Era muito bonito, mas valia pouco. Se eu conseguisse uns cem dólares por ele, devia me dar por satisfeito. Será que todos os ingressos até o final da Copa iam ser baratos daquele jeito? Barato que eu digo é pensando no seu Gomes.

Antes do jogo ia ter a abertura-surpresa. Me lembrei daquelas bichinhas que tinham vindo lá de Uberaba só pela abertura. Perder a abertura? Tava ali, do lado. Quando eu começo pensar besteira, tenho que passar água na cara. Foi o que eu fiz no banheiro. Só aí que eu percebi que tinha toalhinha para o bidê. Achei chiquérrimo, aquilo. Duas. Já que eu estava ali, coçando, usei o bidê. E me enxuguei com aquela toalhinha francesa, levemente perfumada. Eu queria usar tudo o que eu tinha direito.

No bidê, sentado ali como quem não quer nada, a vontade de assistir o jogo contra a Escócia começou a me coçar de novo. Meu, lavei a cara e a bunda e ainda tava pensando besteira? Nem pensar, Gregório. Você veio aqui para vender os ingressos. Só pra isso. No “só pra isso” incluí, sei lá por quê, a Carolina  Di Stefano.

Onde é que eu enfio essa toalhinha, agora?