PARIS! (Romance inédito)

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Inocente, puro e besta
 

Quando fomos sair, ele deixou uma nota de dez dólares em cima da mesa.

— O senhor não disse que era de graça?

Gorjeta, PARIS!. Gorjeta. Em 2002 vou estar de novo aqui. Não custa agradar as meninas.

Pensei em deixar também dez dólares. Mas não deixei, não. Ainda não tinha vendido nenhum ingresso. Pensei: e eu, em 2002 vou estar onde?

Foi nessa hora que eu comecei a encucar com um negócio que eu já devia ter pensado. Como é que eu vou vender os ingressos? Onde? E o mais grave: em que língua? E em que moeda?

Entrei num tubo quadrado e, quando menos esperava, estava dentro do avião. Foi bom, porque chovia muito e eu estava preocupado em como entrar no avião todo molhado.

A aeromoça pegou o meu papelzinho, disse primeira classe, me apontou um rumo e lá fui eu. Achei o meu lugar, vi que as pessoas colocavam a mala de mão em cima, coloquei e sentei. Já tinham me falado do cinto. Coloquei sem problema. A poltrona era boa, larga. Observando e copiando o companheiro de lado, fiz com que ela fosse pra frente e pra trás. Quando ela foi para trás, levei um susto. Debaixo dela, saiu um troço pra gente colocar o pé. Me estiquei todo. Mas logo veio a aeromoça — era outra — e disse para colocar a poltrona na posição vertical. Coloquei. Testei o cinto. Tava firme. Do meu lado estava o Geraldinho. Quando ele disse o nome dele, senti o bafo. O cara já estava bêbado. Eram quase oito horas. Uma terceira moça me perguntou se eu queria champanhe francesa. A Copa prometia.

Fizeram uma demonstração de como agir em caso de acidentes. Aquilo me deixou muito preocupado. Não havia pensado naquelas possibilidades todas. Tinha macete até para se o avião caísse no mar. Aí o avião subiu. Parecia incrível, mas a coisa subiu.

Era um vôo fretado, só de torcedores, soube depois. Poucas mulheres. Jamais conseguiria imaginar o que poderia acontecer naquele vôo. Superava a qualquer imaginação do ser humano. Eu sei que a Magdala não vai acreditar, mas passou, pelo corredor, um galo. Juro! O galo é o símbolo da França, alguém disse. Devia ser isso.

Inocente, puro e besta, tinha levado um livro para ler na viagem. Ivanhoé.  Qual o quê, como diria o Chico Buarque.

Os homens ali dentro estavam fazendo exatamente o que queriam. Viraram meninos, crianças de novo. Quer coisa melhor do que isso? Vestir uma camisa amarela e sair voando por aí?

Tinha, por exemplo, um deputado federal tocando aquela buzina, aquela, sabe, meio corneta?, bem no meu ouvido. Já tinha muito nego bêbado por ali. Coitada das aeromoças. Não sabiam em que viagem embarcaram. A qualquer momento iam passar a mão na Denise, eu tinha certeza. Muito da gostosa, por sinal.

Resolvi dar um passeio, conhecer a aeronave. Quando fui lá para o fundo, é que vi como era ruim lá atrás. Tudo apertado, mal dava para ajeitar o joelho. Aquele negócio que saía debaixo pra gente colocar o pé não tinha lá atrás, não. Percebi que, lá na frente, onde eu estava, era tudo crachá roxo. Ali atrás, os azuis e vermelhos. Era gente menos rica. Deviam ter pago só uns vinte mil dólares. Pobre sofre mesmo.

Alguém vomitou na toalete, a aeromoça - era uma outra - avisou, o comissário foi providenciar.

Um casal descobriu, só naquele momento, que o hotel deles era quatro estrelas. Ela estava quase arrancando os cabelos. Jogava a culpa toda nele, dizia que ele ia ter que resolver o problema, que ela, imagine, não ia ficar num quatro estrela nem morta! Sabia que não podia deixar nas mãos dele...

Informação que vinha lá da primeira classe avisava que o galo tinha vomitado na 3C. Não era a minha.

Duas bichinhas de Uberaba comentavam que estavam indo só pela abertura da copa. Achavam um luxo.

Tinha um outro que sabia tudo sobre o baixo Pigalle. Mulãruge era com ele mesmo. Eu, prestando atenção, aprendendo. Disse que tinha os telefones de umas dançarinas. Coisa finíssima. Aliás, disse depois de detonar mais um copo de uísque: pra falar a verdade, nem gosto de futebol. Vou mesmo é pelas francesas. No que um outro retruca: me disseram que elas não tomam banho. Não acreditei.

De repente, além da buzina, aquela corneta infernal, tinha lá um tambor, uma cuíca e um reco-reco.  De repente é aquela corrente pra frente. Parece que todo o Brasil deu as mãos, salve a seleção! Todo mundo canta. Uma escola de samba a dez mil metros de altura.