PARIS! (Romance inédito)

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Paris é o seguinte: andar. Andar por andar

— Você me promete que vai a Lourdes visitar o santuário? Promete mesmo? Você nasceu dia 11 de fevereiro, meu filho, dia de Nossa Senhora de Lourdes. Você vai lá fazer uma visitinha, assistir a missa, comungar — hoje em dia não precisa mais confessar, não se preocupe — e, o mais importante, me trazer umas medalhinhas dela. Mas tem que ser benta. Entendeu? Benzida!

E deu um gostoso gole no gargalo do vinho francês. Tinto.

Perguntei para várias pessoas o que era apartamento síngol, mas ninguém soube me explicar. Uns, mais metidos, diziam que era o que havia de melhor em matéria de quarto de hotel em Paris. Outros, que já tinham ouvido falar. Uma, lá do banco, me garantiu que tinha espelho no teto.

Ganhei ainda uma bandeira do Brasil, oficial. Mais tarde, sairia de lá completamente embriagado, enrolado nela: pra frente, Brasil.

Um amigo do meu irmão e que estava ali porque já conhecia Paris, foi me explicando:

— Gregório, Paris é o seguinte: andar. A cidade é plana. Andar, andar... Andar por andar, entende?

No final do churrasco passaram um chapéu, arrecadando um dinheirinho a mais. Ninguém sabia que eu ia vender os ingressos, é claro. Tinha vergonha. Ia ficar sujo na Mooca. Sujíssimo!

Dia seguinte, em casa, na véspera da viagem, segunda-feira, dia 9, já no quarto, caímos na contabilidade. Eu iria viajar com exatos 352 dólares. São mais de dez dólares por dia, Dadala! Dava. Tinha que dar. O café da manhã estava incluído no pacote primeira classe. Hotel, ingressos, passagens, viagens, tudo incluído. Ia dar.

— Se for menino, vai chamar Romário!

— Deixa de besteira, Dadala!

Eu queria dar uma transada. Uma daquelas bem dadas, que garantem um mês. Mas não tinha cabeça. Nem tronco e, muito menos, membro. Minha cabeça já estava em Paris. Se meu pai estivesse vivo, ia ficar orgulhoso de mim. Eu devia ser o primeiro Morus a assistir uma Copa do Mundo. A conhecer Paris! Andar por andar tinha entrado na minha cabeça.

Pendurada no cabide do quarto, a bandeira do Brasil toda broxa, caidaça. Oficial, me garantiram. Contei os dólares novamente. 352. Como se estivesse no banco, fiz a conversão em meio segundo: 2.094,40 francos franceses. Coloquei junto com o passaporte e a passagem. E o seguro-saúde, que também fazia parte do primeira classe.

O vôo ia sair às oito da manhã. Tinha que estar lá as seis. Acordar às cinco. A Dadala ia me levar. Eu sabia que não ia dormir. Estava com medo. Nunca tinha viajado de avião na minha vida. Arrotei churrasco.

— Você não me vai arrotar em francês, hein, Gorinho! Pelo amor de Deus!

Eu estava longe, muito longe dali, folheando o tal do Berlitz.

— Éructer.

— O quê?

— Arrotar. Em francês.

Rimos. Rimos muito. A gente estava muito feliz.

Nunca tinha entrado naquele aeroporto. Conhecia o de Congonhas, é claro. Mas aquele, não. Aquele era internacional. Grande pra burro. Tinha coisa escrita em tudo quanto é língua. Vermelho. Restaurante, livrarias. Parecia o Center Norte. Tava escuro ainda naquela madrugada do dia 10 de junho, dia da estréia do Brasil contra a Escócia, aqueles caras de saia, feito o marido da Lady Di.

Andando, empurrando o carrinho com uma única mala. Uma bolsa de mão da agência, amarelíssima, com um escudo da CBF. Tava me sentindo demais! No peito, um bruta dum crachá roxo escrito bem grande “Gregório Morus” e mais embaixo “Primeira Classe”. Todo metido:

— Temos que procurar o departure.

Ela riu:

— Como você é bobo, Gorinho.                               

— Sabe como é câmbio? Chãj.

— Chánji?

— É. Chãj. Põe a língua aqui, ó. Não, não é assim. Olha!