Dar um beijo em sua boca e
seja-o-que-Deus-quiser
Seu Agenor soltou a gargalhada:
— Nunca poderia imaginar que um professor de Literatura pudesse gostar de futebol.
Nós três estávamos mesmo virando um belo trio. Os Três Mosqueteiros, como diria o Geraldinho.
Nos dois dias seguintes, tentei evitar a Carolina. Ganhei o campeonato de tênis e embolsei mais 8.700 dólares. O que eu tinha já dava para pagar o seu Agenor. Mas eu queria mais, muito mais.
No dia 16, partimos cedo de trem-bala para Nantes. Não vendi o ingresso. Vi os três a zero contra Marrocos. Ronaldo, Rivaldo e Bebeto.
Dia 17, dez da manhã, a Carolina toca na minha porta.
Eu abro, ela entra, coloca sua imensa bolsa em cima da cama, senta e começa a chorar.
— Eu não vinha aqui. Tinha que ir ao banco ver uns negócios para o Ricardo. Mas não sei o que deu. Quando eu percebi estava batendo aqui. Desculpa te incomodar.
Deitou na minha cama, chorando. Não sei o que fazer
Eu quieto e ela chorando, de bruços. Estava uma manhã quente, ela estava de bermuda. Sua perna era linda. Aqui ou ali algum hematomazinho do futebol. Seu seio era abundante e ficava arfante com o choro. Porém firme. A Dadala que me perdoasse. Iria ser uma vezinha só. Não sou de ferro, como diria depois para o seu Agenor e o Geraldinho. Fui chegando perto dela, alisando o cabelo loiro. Ela foi se aconchegando nas minhas pernas. Quando eu fui descendo para dar um beijo em sua boca e seja-o-que-Deus-quiser, ela desandou a falar.
Resumidamente, disse o seguinte.
— Sim, ela jogava mesmo futebol. Mas era fazendo filme pornográfico na Holanda que ela ganhava dinheiro. Seu namorado a explorava. Eram filmes ilegais, sem pagamento de impostos, sem registros. Me contou tudo sobre a máfia da pornografia européia. Ela queria sair daquilo, mas estava muito envolvida. Chorava, chorava. Disse que estava apaixonada por mim e que não era uma garota de programa, era uma atriz, que tinha vindo para a Europa para fazer carreira, mas conheceu a Ricardo e a vida dela virou um inferno. Contou que ele batia nela.
Tudo aquilo foi me deixando mais excitado ainda. Comecei a lembrar de filmes de sacanagem, com aquelas meninas fazendo aquelas coisas todas. Mas, ao mesmo tempo, uma dó danada daquela menina perdida lá na Europa, chorando no meu colo.
— Me tira disso, Gregório! Me tira disso! Você é rico, conhece todo mundo. Me arruma um outro passaporte. Pelo amor de Deus.
Levantou-se, entrou no banheiro e eu fiquei ouvindo o banho dela. Dadala, me perdoa, mas eu tirei a roupa e fiquei só de cueca. Ela saiu enrolada no roupão branco do hotel, demais. Pulou em cima de mim, mordeu os meus lábios e murmurou no meu ouvido:
— Tem camisinha?
Eu não tinha. Ela fez questão. Se vestiu em um segundo e saiu correndo do quarto.
— Segura dois minutos. Tem uma farmácia aqui na frente do hotel.
Eu estava no quarto andar, portanto ouvi o barulho da freada, o barulho da batida e gritos em francês. Corri para a janela. Não havia dúvida. Havia uma loira lá embaixo. De bermudas. E morta. Desci, vi a cena de longe, a ambulância chegando, a polícia, a rua isolada. Um time na Holanda acabara de perder seu meio de campo. Segurei o choro. Aquela menina era gente fina.
Voltei para o quarto, tomei um banho frio e vesti o mesmo roupão que ela havia vestido. Deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Abri uma garrafinha de vinho que havia comprado na rua. Um tinto. Comecei a procurar o copo, esbarrei na bolsa dela. Servi uma dose, senti o gosto do vinho francês – rico gosta de vinho, já havia percebido. Ela disse que ia ao banco, quando chegou. Não resisti e abri a sua bolsa.