Ali mora a Catherine Deneuve
Hoje fizemos um tour por Paris, de ônibus. O bus lotado, com a Sylvia, sempre com a blusa vermelha escrito “Staff”, lá na frente, com a bandeirinha roxa, explicando tudo. O motorista era o seu Manuel que, apesar do nome, era espanhol. Eu já conhecia quase todo mundo ali dentro.
O seu Agenor, eu já falei dele. O Geraldinho, que já acordava bêbado, suava muito e toda hora o ônibus tinha que parar para ele fazer xixi na padaria (quiosque)
da esquina.
Tava também o Zequinha, filho do Sarney, a mulher e dois filhos. Ele ficava recebendo fax do Brasil e distribuía pelo ônibus. Tava o dono da Arapuã, do Center Castilho, da Samello,
do Magazine Luiza, um revendedor Chevrolet, o Zézinho Chevrolet, uns usineiros das Alagoas, um deputado pernambucano, um fazendeiro de Aquidauana que afirmava que metade da cidade era dele e devia ser mesmo. O nome dele era Jorjão e era o cara mais engraçado da turma. E a Teresa Collor, com seu irmão Toninho, que ficaria meu grande amigo. Fora alguns donos de bancos.
É, essa era a minha turma.
No fundo, a Carolina e o namorado, que eu soube que se chamava Ricardo. Parecia ser pai dela. Forçando, dava até para ser avô. Eu não conseguia entender aquele negócio. Que ele era milionário eu não tinha dúvida. Mas e ela? Dando um golpe do baú? Com aquela cara de anjo? Pouco a pouco eu iria descobrindo tudo.
Quando passamos pelo Sena pela primeira vez, uma senhora atrás de mim, perguntou ao marido:
— Benhê, deram o nome pru rio antes ou depois da morte do Senna?
Torre Eiffel, Louvre, Arco do Triunfo, Sorbonne, Invalides, Saint Germain (cadê
o Raí?), Sacré-Couer, Ritz Hotel “daqui saiu a Lady Di para a morte”, “ali mora a Catherine Deneuve”, “aqui mora o Alain Delon”, “ali
foi decapitada Maria Antonieta”, “ali é o apartamento do Chico Buarque”, “aqui
fica o Chirac”, “vejam a Notre Dame, onde vamos descer e ficar vinte minutos”.
Era tudo assim, visto de dentro do ônibus. Descemos perto da Notre Dame, que eu sabia que significava Nossa Senhora. Do lado tinha um bar chamado Delice de Notre Dame. Fiquei
imaginando coxinhas da nossa senhora, peitos, etc., me arrependi, fiz o sinal-da-cruz.
Passa a Sylvia com a bandeirinha roxa. Hora
de
ir
para La
Defense. E eu já pensando no ataque. Ah, Magdala, você tem que me entender. Pensava na Magdala como se eu já fosse amante da Carolina, pode? Nunca fui muito metido a conquistador, sempre fui um cara na minha, adoro a Magdala. Mas Paris, gente!, tem um certo, um imenso clima! Impossível não ficar excitado em Paris! Broxo com a voz da Sylvia:
— Gregório, só falta você.
Ela sabia o meu nome. Para ela, eu era igual a qualquer usineiro, fazendeiro ou político que estava ali. Ou banqueiro. E a Carolina, será que ela ficava pensando no que é que eu fazia? Ela, com aquela carinha de rica dela? Ah, se ela me visse num churrasco com a turma do Bradesco.
Voltei na janela, assistindo Paris passar por mim. Parecia um sonho eu estar ali. Que coisa linda! Meu Deus, como eu sou largo. Um microondas nas Casas Bahia. Eu, logo eu, que nem a Bahia conhecia. Ali, subindo a Champs Elisées, como quem sobe a São João, como quem não quer nada. Preciso passear aqui a pé, mais tarde. Andar por andar. Olhando para o Arco do Triunfo como se já o conhecesse há anos. Aquelas ruas, aqueles prédios de apartamentos. Quem será que dorme naqueles quartos todos?
Nos próximos dias eu andaria o dia inteiro, a pé, por aquela cidade. Ficaria apaixonado pela cidade. Faria planos totalmente absurdos de um dia morar ali. Ia ter que convencer a Maria Alice, a gerente, a abrir uma filial do Bradesco lá. De câmbio eu já entendia. Um dia eu ainda iria morar em Paris.
Eu já estava arranhando o francês.